quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Um pouco de João Cabral.

Um trechinho só de um metapoema, mas que podemos com todo gosto nos apropiar e jogar para um corpo dançante, ou outra coisa qualquer que qualquer um quiser.

Escritos com o corpo

Ela tem tal composição
E bem extremada sintaxe,
Que só se pode apreendê-la
Em conjunto: nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
Em que a atenção mais se retarde,
E que, por mais insignificante,
Possua, exclusivo, sua chave.

Nem é possível dividi-la,
Como a uma sentença, em partes;
Menos do que nela é sentido,
Se conseguir uma paráfrase.

E assim como, apenas completa,
Ela é capaz de revelar-se,
Apenas um corpo completo
Tem, de apreendê-la, faculdade.

Apenas um corpo completo
E sem dividir-se em análise
Será capaz do corpo a corpo
Necessário a quem, sem desfalque,

Queira prender todos os temas
Que pode haver no corpo frase:
Que ela, ainda sem se decompor,
Revela então, em intensidade.

De longe como Mondrians
Em reproduções de revista
Ela só mostra a indiferente
Perfeição da geometria.

Porém de perto, o original
O que era antes correção fria,
Em que a câmara da distância
E suas lentes interfiram,

Porém de perto, ao olho perto,
Sem intermediárias retinas,
De perto, quando o olho é tato,
Ao olho imediato de cima,

Se descobre que existe nela
Certa insuspeita energia
Que aparece nos Mondrians
Se vistos na pintura viva.

Como o de coisa maciça
Que ao mesmo tempo fosse oca,
Que o corpo teve, onde já esteve,
E onde o ter e o estar igual fora.

Pois nessa memória é que ela,
Inesperada, se incorpora:
Na presença, coisa, volume,
Imediata ao corpo, sólida (...)

Um comentário:

  1. Hummmmmm..... como continua? Posta mais.... fiquei curiosa de como evolui...

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