DANÇA e TELAS

 

Conheça o Projeto DANÇAe TELAS - Uma pesquisa sobre o fazer artístico durante a pandemia de Covid 19 com vídeos sobre o conteúdo da pesquisa:




DANÇA e TELAS é uma pesquisa teórico-prática de linguagem e de processos criativos em dança e arte que tem como foco a produção contemporânea de trabalhos artísticos na relação com as telas e a invenção de obras em novos formatos.

Realizada durante a pandemia de Covid-19 pelas integrantes do Núcleo de Formação: Carolina Hofs, Fernanda Muniz, Jaqueline Silva, Marcela Brasil, Mariângela Andrade, Mônica Bernardes, Renata Studart, Rebeca Damian e Tauana Parreiras com coordenação de Luciana Lara.

Começa aqui uma série de  vídeos com alguns temas e questões que permearam a pesquisa. Siga com a gente nessa viagem investigativa por aqui e também no nosso instagram!

Instagram: https://www.instagram.com/nucleodeformacaoasq/


Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal



#paratodosverem: vídeo com animações das informações sobre o projeto. Títulos correm rápido até pararem sob título texturizado . Silhuetas de várias pessoas caminhando pisca e é atravessada por um conjunto de linhas verdes na vertical que se desloca lentamente. No final, logos das instituições que apoiam a realização do projeto.



1.  




Há 5 anos atrás, no auge da pandemia da Covid-19, nós nos perguntávamos onde estava nosso carnaval quando o mundo ainda contava perdas e aprendia a sobreviver entre telas, máscaras e distâncias.

Dançávamos para não esquecer que ainda estávamos vivas. Movimentos mínimos, respirações calculadas, o som abafado do cotidiano substituindo o tambor que não podia ecoar nas ruas.

E então o tempo passou.


O carnaval acabou de acontecer. As ruas voltaram a pulsar. Corpos suados se tocam sem medo. O batuque ocupou novamente o espaço público.

Ao rever este vídeo hoje, ele já não fala apenas de isolamento - fala de travessia. Fala da memória de um tempo em que dançar era insistir. Em que o gesto era resistência silenciosa. Se antes cabíamos no enquadramento de uma tela, agora transbordamos avenidas.

Mas algo permanece: a consciência da presença. A delicadeza de estar junto. O valor do encontro. Porque depois de experimentar a ausência, cada abraço vira celebração.
Cada passo na rua vira afirmação de vida.

Cada carnaval é, também, um ritual de sobrevivência.
Dançamos antes para suportar.
Dançamos agora para celebrar.

Vídeo criado durante experimentação com o Motto IO, projeto interativo e uma experiência narrativa única desenvolvida pelo estúdio AATOAA (de Vincent Morisset).

Texto de Fernanda Muniz.

#paratodosverem: vídeo aparecendo a frase “Cadê meu carnaval?” escrito com caneta azul em uma folha branca sem pauta.
6 sem




2.

Em março de 2020, o mundo contraiu.

Portas fecharam, corpos recolheram-se, teatros silenciaram. E foi justamente na contração que respiramos expansão.

A tela tornou-se lugar de encontro.

Não substituição — mas travessia.

Entre pixels e instabilidades, inventamos permanência. O que antes se organizava no calor do palco passou a existir mediado por câmeras, cabos e conexões frágeis.

Descobrimos que o isolamento físico não impedia o movimento do pensamento. A dança precisou encarar a ausência como matéria.

Entre quedas de internet e microfones fechados, reinventamos o gesto e seguimos.

Nesse sentido, o Dança e Telas não nasce como um projeto. Nasce como pergunta.

O que acontece quando o corpo encontra a câmera?

Entre presença e enquadramento, entre gesto e corte, abrimos um espaço de investigação artística. Um território onde a dança não é apenas coreografia — é pensamento em movimento. E a tela não é apenas suporte — é matéria, dobra, textura.

Texto de Fernanda Muniz.
Video de Mônica Bernardes

#paratodesverem: uma mulher jovem branca e de cabelos castanhos escuros vestindo um short azul e uma blusa listrada está deitada em um chão de tacos de barriga pra cima. No canto esquerdo baixo vemos parte de uma cama. Braços e pernas estão dobradas. Ela move a cabeça de um lado pro outro e depois se encolhe na posição fetal. Se abre apoiada na lateral do corpo , perna e braços flutuam. Ela estende o braço pra cima olha para mao se encolhe novamente e gira se sentando. As informações sobre o projeto surgem.





3.

Criar dança para a tela não é filmar uma coreografia!

É perguntar: Onde o movimento começa? O que o enquadramento revela? O que o corte silencia?

E criar para as telas da videoconferência, naquele momento da pandemia, o que cabia?

Em 2021, era preciso caber. No enquadramento, na sala, no quadrado da videoconferência. O corpo inteiro não aparecia e logo percebemos então que o chão de nossas casas não era linóleo e sim as nossas vidas acontecendo ali no agora. As primeiras tentativas de transpor o que fazíamos no palco para a tela foram atravessadas por frustração.

Mas o que parecia limite tornou-se linguagem, a videoconferência virou palco, e de muitas produções na época. Assim, aprendemos que caber também é reinventar o espaço. A proximidade da câmera ampliou o mínimo e pequenos movimentos tornaram-se paisagem. Quando o corpo dança para a câmera, cada detalhe importa. O olhar vira dramaturgia. A respiração vira trilha. O silêncio vira presença.

Foi assim que surgiu o “Retrato Sem Ruído”. Inspirado nos vídeo retratos de Robert Wilson o os screen tests de Andy Wahrol, dez mulheres permanecem durante 30 minutos sorrindo, relacionando esse gesto facial com o lugar da mulher na sociedade atual.

Retratar-se é também perguntar: quem historicamente foi retratado?
Na investigação sobre imagem e identidade, compreendemos que a fotografia e o vídeo não são neutros. A imagem é poder. É memória. É disputa. Com referência no curta Travessia, de Safira Moreira, refletimos sobre apagamentos históricos e a urgência de produzir novas visualidades.

Você já assistiu a uma dança pensada para a câmera?

Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

#pratodesverem: Três mulheres, cada uma em um retângulo, dispostas em duas linhas uma em cima da outra (duas na primeira linha e uma na segunda).Todas aparecem do busto para cima, com ombros nus, olhando para a câmera e sorrindo. Depois aparece mais uma mulher e depois outra, e segue assim até completar 10 mulheres na tela sempre sorrindo. Cada vez que parece uma mulher os retângulos que elas estão dentro são rearranjados na tela. Elas somem e surgem as informações sobre o projeto.




4- 



Nada na pesquisa foi linear: o pensamento nasceu no corpo e a teoria surgiu do movimento.

Dança e Tela foi um laboratório que assumiu o risco e o processo de construção coletiva, onde juntas descobrimos que arte não é executar o que já está pronto, mas inventar o modo de fazer enquanto se faz.

Assim, chamamos nossa prática de INDISCIPLINAR

Não interdisciplinar.

Não multidisciplinar.

Não transdisciplinar.

Indisciplinar porque transborda. Porque recusa compartimentos fixos. Porque dança atravessa vídeo, fotografia, escrita, tecnologia, filosofia, cotidiano.

Inspiradas nas reflexões de Jacques Rancière, compreendemos que as disciplinas são construções históricas que organizam e também limitam o pensamento. Criar, então, era desobedecer fronteiras e permitir que a dança escapasse das definições. Indisciplinar é pensar com o corpo e para além dele.


#paratodesverem: um olho pisca com um pedaço de papel preso nas pálpebras onde está escrito mover o ver.





5-


Lembra da #FIQUEEMCASA?

A pandemia da Covid 21 nos colocou diante de um enquadramento inesperado: janelas como molduras, portas como limites e o chão das nossas casas como o único território possível e seguro. Os pés descalços sobre o piso frio, o papelão improvisado, a planta suspensa na varanda foram pequenos gestos que passaram a ser paisagem, cenário e palco durante nossos encontros virtuais. O corpo, antes lançado à rua, recolheu-se. E, nesse recolhimento, descobriu outras formas de expansão. Cada canto das nossas casas se tornou laboratório: a luz da manhã entrando pela janela e o enquadramento do próprio rosto em ângulos improváveis.

Criar era também sobreviver. Inventamos, juntas, novas delicadezas: folhas colhidas no quintal, objetos cotidianos ressignificados, o próprio corpo como matéria poética. Criar foi um ato de resistência onde pudemos expressar: ainda estamos aqui.

Ainda sentimos. Ainda imaginamos. E por isso, ainda criamos!

#pratodosverem: A imagem é uma colagem composta por nove fotografias organizadas em uma grade 3x3. Elas aparecem uma por uma.A maioria das fotos é em preto e branco, com exceção de uma imagem colorida com céu azul. Elementos recorrentes incluem pés descalços, mãos, grades, janelas, plantas e luz natural.





6-



Dançar é também cartografar!

Nessa descoberta de novos caminhos onde a dança encontrou a tela, pudemos juntas, testemunhar o surgimento de mundos possíveis, traçando caminhos que não preexistiam e sustentamos, no gesto, a potência do devir. Entre setas, imagens e atravessamentos, não desenhamos um mapa: compomos uma cartografia viva.

À maneira de Deleuze, cartografar não é reproduzir o já dado, mas acompanhar forças, intensidades, desvios. Assim, nos nossos encontros virtuais, cada janela aberta era um território sensível, onde tudo passou a integrar a dramaturgia de uma investigação até a falha de conexão virava pausa e parecia coreografar acontecimentos.

Entre performances, videoartes, retratos sem ruído e experiências interativas, criamos percursos que nos conectavam umas com as outras e com nós mesmas, bem como com os nossos desejos e aspirações artísticas: pequenos núcleos de afeto e resistência espalhados por cabos, sinais e wi-fi.

A cartografia, então, deixou de ser representação e se tornou acontecimento.Não há centro fixo e sim núcleos pulsantes.

Não há hierarquia rígida, mas rizomas que se expandem.

Imagem: Percursos de um estudo registrados na plataforma Padlet.

#Pratodesverem: A imagem mostra um painel digital com fundo roxo, organizado como um mapa mental com tema “Base de dados ASQ”. Diversos blocos de texto, imagens, links, prints de vídeos e anotações estão distribuídos pela tela e conectados por linhas brancas, formando uma rede de relações.





7-


As relações do corpo com a tela vêm de muito antes da pandemia, claro. Mas neste período, fomos obrigados com o isolamento radical, a fazer tudo mediados pelas telas. Era a única forma de socialização e, também, de trabalho artístico. Tinha até festa de aniversário por videoconferência.

Todo mundo lembra bem que por uma questão de sobrevivência, alguns artistas tiveram que migrar para as telas para continuar trabalhando. Como outros trabalhadores tiveram que se adaptar a essa realidade imaterial, bidimensional, virtual e restrita das telas. Aulas, workshops, lives e até espetáculos foram produzidos. E a gente chama atenção para uma especificidade deste momento, o processo criativo e as pesquisas foram, também, feitos mediados por telas.

Não foi diferente com o Núcleo de formação ASQ. Continuar dançando foi um desafio. Além da falta de espaço em casa para mover e a restrição do recorte da tela, tinha a falta de distância necessária para a câmera pegar o corpo inteiro. E você mesmo tinha que se filmar.

Precariedade era a tônica. E no ambiente multitelas dos aplicativos de reunião virtual - um dos poucos suportes que tínhamos acesso e que permitiam a transmissão ao vivo (e é ainda até hoje) - o espaço da tela era ainda menor. Quanto mais gente, menor a imagem.

E ainda, com todo o medo, tensão e tristeza com a tragédia humana que estava se desenrolando, a situação era paralisante.

Que dança era possível? Que produção artística era cabível (em todas as dimensões) ? E esse corpo cortado? O que pode um corpo na tela? O que pode um corpo imagem?



#pratodosverem: Uma sequência de fotos de uma mulher de costas com os braços dobrados produz uma sensação de movimento. Os quadris estão cortados pelos limites da tela e a cabeça de vez em quando também é cortada, só vemos as costas nuas. Ela ergue os braços dobrados e coloca-os para trás. Informações sobre o projeto surgem. A última imagem é das logomarcas dos realizadores e apoiadores do projeto.





8-


Na performance "Ato de Costas" de Thereza Rocha, exibida no lançamento do site e da publicação digital do projeto Dança e Telas: uma pesquisa sobre o fazer artístico na pandemia da Covid 19, o corpo escolhe o gesto de não encarar a tela.

Em vez disso, volta-se para a parede, onde repousam porta-retratos vazios. Enquanto dança com a voz, a artista reflete sobre o contexto político e social do Brasil durante a pandemia, um tempo marcado por telas, incertezas e "desgoverno". Com a simbologia das costas, um raciocínio repleto de conexões com a filosofia e com obras artísticas, torna visível dimensões do que estava acontecendo na época e levanta questões sobre possíveis e necessárias respostas da produção artística em dança.

Thereza cita a obra “Marcha a ré” (2020) do diretor do Teatro da vertigem, Antonio Araújo e o artista Nuno Ramos. Uma performance onde mais de cem carros são conduzidos em marcha a ré na avenida Paulista ao som de respiradores utilizados nas UTIs. No final do percurso, um trompetista tocava o hino nacional ao contrário. Uma homenagem às vítimas da Covid -19 e um manifesto contra o “retrocesso civilizatório” do descaso, desrespeito às vítimas e a negação da gravidade da doença.

Thereza fala do incômodo sobre os excessos de imagem, de frontalidade, o “sequestro da imaginação” e a relevância de uma “imaginação incorporada” e como os artistas podiam compreender e responder ao momento sem corroborar com o status quo. Contra a ideia progressista capitalista de que o futuro está sempre à frente, a artista reflete com o corpo: "Talvez só possamos chegar a ele andando para trás, olhando pelo “olho das costas”.

Entre inúmeras relações com os estudos Dança e Telas, entendemos como um gesto “Sankofa” o retorno às nossas produções criadas durante a pandemia. Urge outras perspectivas do que seria avançar para o futuro: o agora se nutre de passado, e o amanhã inevitavelmente se torna ontem.



#pratodosverem: uma mulher de cabelos pretos de costas vestindo uma roupa branca e um colar, está sentada de frente pra uma parede com várias molduras de quadro vazias.








Por trás de cada gesto, há uma história.

Por trás de cada processo, há uma rede.

Apresentamos a equipe que sustenta o Dança e Telas: artistas, pesquisadoras, educadoras, produtoras e criadoras que, há anos, constroem pensamento e prática em dança de forma crítica, coletiva e sensível.

✨ Luciana Lara — Criadora e coordenadora do Núcleo de Formação A.S.Q., fundadora da Anti Status Quo Companhia de Dança, coreógrafa, pesquisadora e autora. Uma trajetória que atravessa décadas de investigação em dança contemporânea.

✨ Jaqueline Silva — Doutora em Artes Cênicas e formada na Técnica Klauss Vianna, atua nos cruzamentos entre política, afetos e práticas somáticas.

✨ Mariângela Andrade — Artista da dança e angoleira, doutora em Teoria da Literatura. Investiga o corpo como fio entre dança e escrita.

✨ Marcela Brasil — Dançarina contemporânea com 30 anos de experiência. Sua atuação é marcada por uma arte crítica, poética e feminista.

✨ Fernanda Muniz — Brincante, poeta, artista-pedagoga e autora de “Gira: passos para uma educação decolonial”. Atua na educação pública, pesquisa performances afro-brasileiras e práticas somáticas em dança.

✨ Rebeca Damian — Produtora, artista e pesquisadora do audiovisual. Articula dança, cinema e intervenções urbanas.

✨ Mônica Bernardes — Artista da cena, produtora e iluminadora, com atuação na gestão cultural e nos bastidores que tornam o acontecimento possível.

✨ Tauana Parreiras — Arte-educadora, dançaterapeuta e artista multimídia. Sua produção atravessa dança, performance e vídeo.

✨ Carolina Höfs — Pesquisa os encontros entre antropologia, dança e cinema, expandindo os territórios do corpo

✨ Renata Pinho Studart Gomes — Bailarina, ativista de direitos humanos e gestora de políticas públicas, conectando arte e transformação social.

Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.-

#paratodosverem: Títulos apresentando as artistas pesquisadoras. Surge uma colagem com 10 fotos de 10 mulheres. Uma foto de cada vez se destaca do todo, sacode e fica colorida enquanto todas as outras ficam preto e branco. O nome de cada uma aparece. No final,todas as fotos sacodem. No final logos do FAC.


Acesse o site e a publicação digital do Dança e Telas - uma pesquisa sobre o fazer artístico durante a pandemia de COVID 19:










Nenhum comentário: